
Publicado originalmente em 1912
Narrativa memorialística e ficcionalizada que acompanha a trajetória da Preta Fernanda e transforma sua busca por amor, reconhecimento e ascensão social em sátira da sociedade colonial portuguesa.
Sobre Recordações de uma Colonial
Publicado em Lisboa em 1912, Recordações de uma Colonial: Memórias da Preta Fernanda apresenta, em primeira pessoa, as lembranças de uma mulher negra que parte da África, passa por Dakar e constrói grande parte de sua vida em Lisboa. Amores, casamentos, empregos, festas, dificuldades financeiras e tentativas de ascensão social se sucedem em uma narrativa marcada pelo humor, pelo exagero e pela caricatura.
Embora se apresente como memória autobiográfica, o livro não pode ser lido como o registro transparente de uma vida. A identidade de quem efetivamente escreveu o texto, a participação da própria Fernanda e a correspondência entre os acontecimentos narrados e sua trajetória histórica permanecem parcialmente incertas.
É justamente essa ambiguidade que torna a obra particularmente interessante hoje: Recordações de uma Colonial permite observar ao mesmo tempo uma personagem negra ocupando o centro da narrativa e os mecanismos coloniais, raciais e sexuais empregados para construí-la.
Qual é o enredo de Recordações de uma Colonial?
A narrativa começa com a infância de Andrêsa do Nascimento, nome usado pela protagonista no livro, em Cabo Verde. Ainda jovem, ela deixa a família ao lado de um capitão, viaja para Dakar e depois chega a Lisboa, onde passa a perseguir aquilo que considera uma vida mais próspera, livre e socialmente elevada.
A partir daí, sua trajetória avança por sucessivas mudanças de posição. Andrêsa passa por casamentos e relacionamentos amorosos, serviço doméstico, dificuldades financeiras e diferentes tentativas de conquistar reconhecimento. Ao mesmo tempo, aproxima-se dos ambientes de sociabilidade e entretenimento da capital portuguesa, até adotar o nome Fernanda do Vale e construir para si uma identidade pública.
O movimento da narrativa é feito de ascensões e quedas. Cada conquista parece abrir caminho para uma nova desilusão, e Fernanda reage recomeçando: procura outro amor, outra ocupação, outra oportunidade ou outro espaço onde possa afirmar sua presença. Ao longo dos dez capítulos, a vida pessoal da protagonista se mistura à vida urbana de Lisboa, seus salões, teatros, festas, militares, artistas e tipos populares.
Mais do que conduzir a um único conflito central, o livro acumula episódios. O fio que os une é a determinação da narradora em transformar uma existência constantemente ameaçada pela precariedade em uma vida digna de ser vista, comentada e, finalmente, lembrada.
Quando Recordações de uma Colonial foi publicado — e quem escreveu o livro?
Recordações de uma Colonial foi publicado originalmente em Lisboa em 1912. Fernanda do Vale aparece como o nome associado à voz autobiográfica, enquanto A. Totta e F. Machado são identificados na obra como responsáveis pela “cópia”.
Essa formulação está no centro de um dos principais problemas do livro. A protagonista afirma em diferentes momentos não dominar plenamente a leitura e a escrita, enquanto o texto utiliza referências culturais, jogos de linguagem e uma elaboração literária que apontam para forte mediação de outros autores.
Por isso, estudos posteriores passaram a tratar com cautela tanto sua autoria quanto seu caráter autobiográfico. É possível que acontecimentos e lembranças ligados à Fernanda histórica tenham fornecido matéria para o livro; não é possível, porém, assumir que a voz que lemos seja simplesmente sua voz transcrita para o papel.
Essa distinção muda a leitura. Em vez de perguntar apenas se cada episódio “aconteceu de verdade”, torna-se necessário perguntar como a vida de uma mulher negra foi transformada em personagem literária — e por quem.
Por que Recordações de uma Colonial importa?
A singularidade da obra não está em oferecer uma autobiografia confiável da Preta Fernanda. Está no problema que ela preserva.
Uma mulher negra ocupa o centro de uma narrativa sobre desejo, mobilidade, dinheiro, sociabilidade e vida urbana na Lisboa da virada do século XIX para o XX. Sua personagem procura permanentemente ser vista e reconhecida. Ao mesmo tempo, a forma pela qual essa presença chegou ao papel parece ter sido profundamente mediada pelos códigos raciais, sexuais e literários de uma sociedade colonial.
O livro permite, por isso, duas leituras simultâneas: acompanhar a personagem exuberante que narra suas próprias aventuras e observar criticamente quem construiu essa voz, quais estereótipos foram mobilizados e quais relações de poder determinaram a maneira como uma mulher negra podia aparecer na literatura portuguesa daquele período.
Essa contradição explica por que Recordações de uma Colonial continua relevante: o livro não oferece uma memória intacta do passado. Ele mostra também como uma memória pode ser apropriada, deformada, preservada e disputada.
Leia Recordações de uma Colonial em português brasileiro
A edição da Inkwell recupera o texto publicado em 1912 em uma versão adaptada ao português brasileiro contemporâneo, acompanhada de notas e posfácio que ajudam a compreender sua autoria, seu contexto e os problemas de representação presentes na obra.









