person using typewriter

QEscrever uma história envolve muito mais do que colocar uma sequência de acontecimentos no papel. Personagens, conflito, ponto de vista, estrutura, diálogo, ritmo e linguagem são algumas das escolhas que determinam como uma narrativa será construída e como chegará ao leitor.

É desse trabalho com a criação e com as técnicas da escrita que trata a escrita criativa: uma prática literária, mas também uma área de estudo dedicada a compreender, exercitar e desenvolver os recursos usados na produção de textos.

O que é escrita criativa?

Escrita criativa é a produção de textos em que a criação, a expressão e o trabalho com recursos literários ocupam uma posição central. Ela pode abranger tanto textos ficcionais quanto não ficcionais e inclui formas como romance, conto, poesia, teatro, roteiro, autobiografia e memórias.

O termo também pode ser usado em um segundo sentido: o de disciplina dedicada ao estudo e à prática da escrita literária. Nesse contexto, escrever deixa de ser visto apenas como resultado de inspiração e passa a envolver leitura, exercício, conhecimento de técnicas, reescrita e discussão do texto.

Por isso, quando falamos em escrita criativa, podemos estar falando tanto do texto produzido quanto do conjunto de práticas usadas para aprender a produzi-lo.

Escrita criativa e literatura são a mesma coisa?

Os dois conceitos se sobrepõem, mas o termo escrita criativa costuma colocar maior ênfase no processo de criação.

Em sentido amplo, ele pode designar aquilo que tradicionalmente chamamos de escrita literária, abrangendo seus diferentes gêneros e formas. Em contextos educacionais, porém, a expressão também identifica uma prática de ensino voltada para o desenvolvimento do escritor e de suas técnicas.

Assim, um romance concluído pode ser entendido como resultado de escrita criativa, enquanto uma oficina que estuda como construir personagens ou organizar uma narrativa pertence à escrita criativa como campo de aprendizagem.

O que diferencia a escrita criativa de outros tipos de escrita?

Uma das maneiras de compreender o conceito é compará-lo a formas de escrita cuja finalidade principal é profissional, jornalística, acadêmica ou técnica.

Na escrita criativa, ganham destaque elementos como:

  • estrutura narrativa;
  • construção de personagens;
  • ponto de vista;
  • diálogo;
  • estilo;
  • linguagem figurada;
  • ritmo;
  • enredo;
  • tema;
  • tom e voz.

A criatividade e o trabalho com a forma do texto assumem, portanto, um papel central. Isso não significa que textos criativos não possam informar ou tratar de fatos reais: autobiografias, memórias e outras formas de não ficção também podem fazer parte desse campo.

A fronteira também não precisa ser completamente rígida. O próprio conceito é suficientemente amplo para reunir diferentes maneiras de utilizar a escrita como forma de criação.

Quais formas fazem parte da escrita criativa?

A escrita criativa não corresponde a um único gênero literário.

Ela pode aparecer em diferentes formas, entre elas:

  • romance;
  • conto;
  • novela;
  • poesia;
  • teatro;
  • roteiro;
  • autobiografia e memórias;
  • ensaio literário;
  • não ficção criativa.

As fontes sobre o tema apresentam ainda outras possibilidades, como ficção breve, histórias em quadrinhos e formas de escrita destinadas ao palco ou à tela.

Isso explica por que estudar escrita criativa não significa necessariamente aprender a escrever romances. Técnicas e objetivos podem variar de acordo com a forma escolhida.

Quais são os principais elementos da escrita criativa?

Não existe uma única fórmula para produzir um texto literário. Ainda assim, diversos elementos aparecem repetidamente no estudo e na prática da escrita criativa.

Ponto de vista

O ponto de vista determina a perspectiva pela qual uma história é apresentada.

A escolha entre primeira, segunda ou terceira pessoa interfere nas informações disponíveis ao leitor e na relação estabelecida com personagens e acontecimentos.

É uma decisão estrutural: mudar quem conta uma história pode alterar profundamente a experiência de leitura.

Personagens

Personagens são construídos por diferentes recursos, como ações, falas, características físicas e psicológicas e pelas relações que estabelecem ao longo da narrativa.

No caso da escrita dramática, essa construção depende especialmente daquilo que as personagens fazem e dizem em cena.

Estrutura narrativa

A estrutura organiza a maneira pela qual os acontecimentos são apresentados.

Uma narrativa pode seguir uma progressão tradicional de exposição, conflito, clímax e resolução ou adotar formas fragmentadas e não lineares.

Estudar estrutura significa observar não apenas o que acontece, mas em que ordem e de que maneira o leitor recebe essas informações.

Conflito e enredo

Conflito e enredo estão entre os elementos associados à construção narrativa. O conflito cria forças em oposição; o enredo organiza os acontecimentos que compõem a história.

Ambos podem assumir formas muito diferentes conforme o tipo de texto.

Diálogo

O diálogo permite apresentar relações, conflitos, informações e características das personagens por meio de suas próprias falas.

Na escrita para teatro e cinema, sua importância é particularmente evidente, pois personagens precisam ser caracterizadas em grande parte por aquilo que fazem e dizem.

Ritmo

O ritmo determina a velocidade com que o texto parece avançar.

Ele pode ser influenciado pela extensão das cenas, quantidade de detalhes, diálogos, ação e forma como os acontecimentos são distribuídos.

Espaço e cena

O espaço estabelece onde os acontecimentos se desenvolvem, enquanto a construção das cenas determina como determinados momentos são apresentados ao leitor.

Esses elementos fazem parte do conjunto de decisões que estruturam uma narrativa.

Tema, motivo, tom e voz

Além de contar acontecimentos, uma obra pode organizar ideias e imagens recorrentes.

Tema, motivo, tom e voz integram o conjunto de elementos estudados na escrita criativa e ajudam a determinar tanto os significados de um texto quanto sua identidade estilística.

Metáforas e símbolos

Metáforas, símbolos e outras formas de linguagem figurada permitem acrescentar níveis de significado ao texto e relacionar ideias concretas e abstratas.

Seu uso faz parte do trabalho estilístico da escrita literária.

A escrita criativa pode ser ensinada?

A existência de oficinas, cursos e programas universitários de escrita criativa parte da ideia de que determinados aspectos do trabalho literário podem ser exercitados e desenvolvidos.

Essa perspectiva se distancia da concepção de que escrever literatura depende exclusivamente de um talento inato. Programas de escrita permitem praticar continuamente, estudar recursos do ofício, receber comentários sobre textos e aprender com outros escritores.

Isso não significa que exista uma fórmula capaz de produzir automaticamente boa literatura.

O que pode ser estudado são ferramentas e procedimentos: estrutura, personagem, edição, gêneros, técnicas literárias, geração de ideias e outras dimensões do processo de criação.

Como surgiu o ensino de escrita criativa?

A criação literária é muito mais antiga do que a expressão escrita criativa.

Em sentido amplo, escritores recorrem há séculos a métodos para encontrar assuntos, organizar materiais e trabalhar a linguagem. Algumas fontes remontam essas práticas à Antiguidade.

Já a consolidação da escrita criativa como campo de ensino é muito mais recente.

Nos Estados Unidos, o conceito começou a ganhar espaço no ambiente acadêmico entre o final do século XIX e o início do século XX. O Iowa Writers’ Workshop, criado em 1936, tornou-se um marco na institucionalização da formação universitária de escritores.

O termo aparece, porém, anteriormente. No discurso The American Scholar, de 1837, Ralph Waldo Emerson já empregava a expressão “creative writing” ao lado da ideia de “creative reading”.[1]

Ao longo do século XX, cursos e programas dedicados à prática literária se multiplicaram, especialmente no mundo anglófono.

Como funcionam as oficinas de escrita criativa?

Um formato muito associado ao ensino da escrita criativa é a oficina literária.

Nela, participantes escrevem seus próprios textos e os apresentam para leitura e discussão. O processo costuma envolver escrita, reescrita e comentários de colegas ou professores.

As oficinas também podem abordar:

  • técnicas literárias;
  • estrutura narrativa;
  • gêneros;
  • edição;
  • geração de ideias;
  • bloqueio de escrita;
  • leitura crítica.

A leitura também pode ser parte importante desse processo. Ler uma obra procurando compreender como ela foi construída permite observar com maior atenção suas escolhas estilísticas e seus recursos técnicos.[2]

Escrita criativa, portanto, não significa simplesmente “escrever livremente”. Ela também pode envolver observar como outros textos funcionam, experimentar técnicas e revisar aquilo que foi produzido.

Quais técnicas podem ajudar no processo de escrita?

Existem métodos utilizados para estimular ideias, desenvolver materiais ou facilitar o início do processo.

Entre os exemplos encontrados nas fontes estão:

  • freewriting, ou escrita livre;
  • brainwriting;
  • cluster;
  • brainstorming;
  • mapas mentais;
  • oficinas de escrita;
  • oficinas específicas para romances.

Essas práticas não substituem o trabalho de construção e revisão do texto. Elas funcionam como ferramentas que podem ser incorporadas a processos mais amplos.

Uma oficina, por exemplo, pode combinar exercícios de geração de ideias com leitura, produção de cenas, discussão coletiva e reescrita.

Escrita criativa no Brasil

No Brasil, a escrita criativa também passou por um processo de institucionalização.

A PUCRS, que já mantinha uma oficina literária conduzida por Luiz Antonio de Assis Brasil, passou em 2011 a oferecer mestrado e doutorado em Escrita Criativa. No mesmo ano, o Instituto Vera Cruz criou a pós-graduação Formação de Escritores.[3]

Com o reconhecimento da área pelo MEC, também surgiram cursos de graduação voltados à escrita criativa em instituições brasileiras.[3]

Esse desenvolvimento aproxima o país de uma tradição em que a criação literária pode ser estudada dentro e fora da universidade, em cursos, oficinas e outros espaços de formação.

Como começar a estudar escrita criativa?

As próprias práticas de ensino apresentadas nas fontes sugerem alguns caminhos complementares.

Leia observando como o texto foi construído.
Além de acompanhar a história, observe personagens, estrutura, ponto de vista, diálogos, ritmo e linguagem.[2]

Escreva e reescreva.
O trabalho em oficinas valoriza não apenas a primeira versão, mas o desenvolvimento do texto por meio da prática e da revisão.

Estude um elemento de cada vez.
Personagem, conflito, estrutura, diálogo, ponto de vista, enredo, cena, ritmo, tema, tom e voz podem ser observados separadamente antes de serem compreendidos em conjunto.

Experimente métodos diferentes.
Escrita livre, brainstorming, mapas mentais e outros exercícios podem ajudar em fases distintas do processo.

A escrita criativa, assim, pode ser entendida menos como uma coleção de regras e mais como um ofício em constante prática: ler, observar, experimentar, escrever, receber retorno e reescrever.

Entender a escrita para entender melhor a literatura

Estudar escrita criativa não interessa apenas a quem pretende escrever.

Observar ponto de vista, personagem, estrutura, ritmo ou diálogo também modifica a maneira como lemos. Em vez de perceber apenas o que uma obra conta, começamos a reconhecer como ela produz seus efeitos.

É essa perspectiva que orienta esta seção da Inkwell: desmontar as histórias em seus elementos para entender melhor como a literatura funciona — e, a partir daí, ler e escrever com um olhar mais atento.


Referências

[1] Emerson, Ralph Waldo. The American Scholar (1837). Harvard University Press, 2015, p. 91–109.

[2] García Carcedo, Pilar. Educación literaria y escritura creativa. Granada: GEU, 2011.

[3] Abed, Carolina Zuppo. “Presença da escrita criativa no Brasil”. Revera: escritos de criação literária do Instituto Vera Cruz, n. 6, 2021, p. 8–40.

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