QEscrever uma história envolve muito mais do que colocar uma sequência de acontecimentos no papel. Personagens, conflito, ponto de vista, estrutura, diálogo, ritmo e linguagem são algumas das escolhas que determinam como uma narrativa será construída e como chegará ao leitor.
É desse trabalho com a criação e com as técnicas da escrita que trata a escrita criativa: uma prática literária, mas também uma área de estudo dedicada a compreender, exercitar e desenvolver os recursos usados na produção de textos.
- O que é escrita criativa?
- Escrita criativa e literatura são a mesma coisa?
- O que diferencia a escrita criativa de outros tipos de escrita?
- Quais formas fazem parte da escrita criativa?
- Quais são os principais elementos da escrita criativa?
- A escrita criativa pode ser ensinada?
- Como surgiu o ensino de escrita criativa?
- Como funcionam as oficinas de escrita criativa?
- Quais técnicas podem ajudar no processo de escrita?
- Escrita criativa no Brasil
- Como começar a estudar escrita criativa?
- Entender a escrita para entender melhor a literatura
- Referências
O que é escrita criativa?
Escrita criativa é a produção de textos em que a criação, a expressão e o trabalho com recursos literários ocupam uma posição central. Ela pode abranger tanto textos ficcionais quanto não ficcionais e inclui formas como romance, conto, poesia, teatro, roteiro, autobiografia e memórias.
O termo também pode ser usado em um segundo sentido: o de disciplina dedicada ao estudo e à prática da escrita literária. Nesse contexto, escrever deixa de ser visto apenas como resultado de inspiração e passa a envolver leitura, exercício, conhecimento de técnicas, reescrita e discussão do texto.
Por isso, quando falamos em escrita criativa, podemos estar falando tanto do texto produzido quanto do conjunto de práticas usadas para aprender a produzi-lo.
Escrita criativa e literatura são a mesma coisa?
Os dois conceitos se sobrepõem, mas o termo escrita criativa costuma colocar maior ênfase no processo de criação.
Em sentido amplo, ele pode designar aquilo que tradicionalmente chamamos de escrita literária, abrangendo seus diferentes gêneros e formas. Em contextos educacionais, porém, a expressão também identifica uma prática de ensino voltada para o desenvolvimento do escritor e de suas técnicas.
Assim, um romance concluído pode ser entendido como resultado de escrita criativa, enquanto uma oficina que estuda como construir personagens ou organizar uma narrativa pertence à escrita criativa como campo de aprendizagem.
O que diferencia a escrita criativa de outros tipos de escrita?
Uma das maneiras de compreender o conceito é compará-lo a formas de escrita cuja finalidade principal é profissional, jornalística, acadêmica ou técnica.
Na escrita criativa, ganham destaque elementos como:
- estrutura narrativa;
- construção de personagens;
- ponto de vista;
- diálogo;
- estilo;
- linguagem figurada;
- ritmo;
- enredo;
- tema;
- tom e voz.
A criatividade e o trabalho com a forma do texto assumem, portanto, um papel central. Isso não significa que textos criativos não possam informar ou tratar de fatos reais: autobiografias, memórias e outras formas de não ficção também podem fazer parte desse campo.
A fronteira também não precisa ser completamente rígida. O próprio conceito é suficientemente amplo para reunir diferentes maneiras de utilizar a escrita como forma de criação.
Quais formas fazem parte da escrita criativa?
A escrita criativa não corresponde a um único gênero literário.
Ela pode aparecer em diferentes formas, entre elas:
- romance;
- conto;
- novela;
- poesia;
- teatro;
- roteiro;
- autobiografia e memórias;
- ensaio literário;
- não ficção criativa.
As fontes sobre o tema apresentam ainda outras possibilidades, como ficção breve, histórias em quadrinhos e formas de escrita destinadas ao palco ou à tela.
Isso explica por que estudar escrita criativa não significa necessariamente aprender a escrever romances. Técnicas e objetivos podem variar de acordo com a forma escolhida.
Quais são os principais elementos da escrita criativa?
Não existe uma única fórmula para produzir um texto literário. Ainda assim, diversos elementos aparecem repetidamente no estudo e na prática da escrita criativa.
Ponto de vista
O ponto de vista determina a perspectiva pela qual uma história é apresentada.
A escolha entre primeira, segunda ou terceira pessoa interfere nas informações disponíveis ao leitor e na relação estabelecida com personagens e acontecimentos.
É uma decisão estrutural: mudar quem conta uma história pode alterar profundamente a experiência de leitura.
Personagens
Personagens são construídos por diferentes recursos, como ações, falas, características físicas e psicológicas e pelas relações que estabelecem ao longo da narrativa.
No caso da escrita dramática, essa construção depende especialmente daquilo que as personagens fazem e dizem em cena.
Estrutura narrativa
A estrutura organiza a maneira pela qual os acontecimentos são apresentados.
Uma narrativa pode seguir uma progressão tradicional de exposição, conflito, clímax e resolução ou adotar formas fragmentadas e não lineares.
Estudar estrutura significa observar não apenas o que acontece, mas em que ordem e de que maneira o leitor recebe essas informações.
Conflito e enredo
Conflito e enredo estão entre os elementos associados à construção narrativa. O conflito cria forças em oposição; o enredo organiza os acontecimentos que compõem a história.
Ambos podem assumir formas muito diferentes conforme o tipo de texto.
Diálogo
O diálogo permite apresentar relações, conflitos, informações e características das personagens por meio de suas próprias falas.
Na escrita para teatro e cinema, sua importância é particularmente evidente, pois personagens precisam ser caracterizadas em grande parte por aquilo que fazem e dizem.
Ritmo
O ritmo determina a velocidade com que o texto parece avançar.
Ele pode ser influenciado pela extensão das cenas, quantidade de detalhes, diálogos, ação e forma como os acontecimentos são distribuídos.
Espaço e cena
O espaço estabelece onde os acontecimentos se desenvolvem, enquanto a construção das cenas determina como determinados momentos são apresentados ao leitor.
Esses elementos fazem parte do conjunto de decisões que estruturam uma narrativa.
Tema, motivo, tom e voz
Além de contar acontecimentos, uma obra pode organizar ideias e imagens recorrentes.
Tema, motivo, tom e voz integram o conjunto de elementos estudados na escrita criativa e ajudam a determinar tanto os significados de um texto quanto sua identidade estilística.
Metáforas e símbolos
Metáforas, símbolos e outras formas de linguagem figurada permitem acrescentar níveis de significado ao texto e relacionar ideias concretas e abstratas.
Seu uso faz parte do trabalho estilístico da escrita literária.
A escrita criativa pode ser ensinada?
A existência de oficinas, cursos e programas universitários de escrita criativa parte da ideia de que determinados aspectos do trabalho literário podem ser exercitados e desenvolvidos.
Essa perspectiva se distancia da concepção de que escrever literatura depende exclusivamente de um talento inato. Programas de escrita permitem praticar continuamente, estudar recursos do ofício, receber comentários sobre textos e aprender com outros escritores.
Isso não significa que exista uma fórmula capaz de produzir automaticamente boa literatura.
O que pode ser estudado são ferramentas e procedimentos: estrutura, personagem, edição, gêneros, técnicas literárias, geração de ideias e outras dimensões do processo de criação.
Como surgiu o ensino de escrita criativa?
A criação literária é muito mais antiga do que a expressão escrita criativa.
Em sentido amplo, escritores recorrem há séculos a métodos para encontrar assuntos, organizar materiais e trabalhar a linguagem. Algumas fontes remontam essas práticas à Antiguidade.
Já a consolidação da escrita criativa como campo de ensino é muito mais recente.
Nos Estados Unidos, o conceito começou a ganhar espaço no ambiente acadêmico entre o final do século XIX e o início do século XX. O Iowa Writers’ Workshop, criado em 1936, tornou-se um marco na institucionalização da formação universitária de escritores.
O termo aparece, porém, anteriormente. No discurso The American Scholar, de 1837, Ralph Waldo Emerson já empregava a expressão “creative writing” ao lado da ideia de “creative reading”.[1]
Ao longo do século XX, cursos e programas dedicados à prática literária se multiplicaram, especialmente no mundo anglófono.
Como funcionam as oficinas de escrita criativa?
Um formato muito associado ao ensino da escrita criativa é a oficina literária.
Nela, participantes escrevem seus próprios textos e os apresentam para leitura e discussão. O processo costuma envolver escrita, reescrita e comentários de colegas ou professores.
As oficinas também podem abordar:
- técnicas literárias;
- estrutura narrativa;
- gêneros;
- edição;
- geração de ideias;
- bloqueio de escrita;
- leitura crítica.
A leitura também pode ser parte importante desse processo. Ler uma obra procurando compreender como ela foi construída permite observar com maior atenção suas escolhas estilísticas e seus recursos técnicos.[2]
Escrita criativa, portanto, não significa simplesmente “escrever livremente”. Ela também pode envolver observar como outros textos funcionam, experimentar técnicas e revisar aquilo que foi produzido.
Quais técnicas podem ajudar no processo de escrita?
Existem métodos utilizados para estimular ideias, desenvolver materiais ou facilitar o início do processo.
Entre os exemplos encontrados nas fontes estão:
- freewriting, ou escrita livre;
- brainwriting;
- cluster;
- brainstorming;
- mapas mentais;
- oficinas de escrita;
- oficinas específicas para romances.
Essas práticas não substituem o trabalho de construção e revisão do texto. Elas funcionam como ferramentas que podem ser incorporadas a processos mais amplos.
Uma oficina, por exemplo, pode combinar exercícios de geração de ideias com leitura, produção de cenas, discussão coletiva e reescrita.
Escrita criativa no Brasil
No Brasil, a escrita criativa também passou por um processo de institucionalização.
A PUCRS, que já mantinha uma oficina literária conduzida por Luiz Antonio de Assis Brasil, passou em 2011 a oferecer mestrado e doutorado em Escrita Criativa. No mesmo ano, o Instituto Vera Cruz criou a pós-graduação Formação de Escritores.[3]
Com o reconhecimento da área pelo MEC, também surgiram cursos de graduação voltados à escrita criativa em instituições brasileiras.[3]
Esse desenvolvimento aproxima o país de uma tradição em que a criação literária pode ser estudada dentro e fora da universidade, em cursos, oficinas e outros espaços de formação.
Como começar a estudar escrita criativa?
As próprias práticas de ensino apresentadas nas fontes sugerem alguns caminhos complementares.
Leia observando como o texto foi construído.
Além de acompanhar a história, observe personagens, estrutura, ponto de vista, diálogos, ritmo e linguagem.[2]
Escreva e reescreva.
O trabalho em oficinas valoriza não apenas a primeira versão, mas o desenvolvimento do texto por meio da prática e da revisão.
Estude um elemento de cada vez.
Personagem, conflito, estrutura, diálogo, ponto de vista, enredo, cena, ritmo, tema, tom e voz podem ser observados separadamente antes de serem compreendidos em conjunto.
Experimente métodos diferentes.
Escrita livre, brainstorming, mapas mentais e outros exercícios podem ajudar em fases distintas do processo.
A escrita criativa, assim, pode ser entendida menos como uma coleção de regras e mais como um ofício em constante prática: ler, observar, experimentar, escrever, receber retorno e reescrever.
Entender a escrita para entender melhor a literatura
Estudar escrita criativa não interessa apenas a quem pretende escrever.
Observar ponto de vista, personagem, estrutura, ritmo ou diálogo também modifica a maneira como lemos. Em vez de perceber apenas o que uma obra conta, começamos a reconhecer como ela produz seus efeitos.
É essa perspectiva que orienta esta seção da Inkwell: desmontar as histórias em seus elementos para entender melhor como a literatura funciona — e, a partir daí, ler e escrever com um olhar mais atento.
Referências
[1] Emerson, Ralph Waldo. The American Scholar (1837). Harvard University Press, 2015, p. 91–109.
[2] García Carcedo, Pilar. Educación literaria y escritura creativa. Granada: GEU, 2011.
[3] Abed, Carolina Zuppo. “Presença da escrita criativa no Brasil”. Revera: escritos de criação literária do Instituto Vera Cruz, n. 6, 2021, p. 8–40.

