Ana de Castro Osório

1872–1935 · Mangualde, Portugal · Setúbal, Lisboa e Brasil

Escritora, editora, pedagoga e ativista republicana, foi uma figura central do feminismo português e da consolidação da literatura infantil em Portugal.

Quem foi Ana de Castro Osório?

Ana de Castro Osório nasceu em Mangualde, em 18 de junho de 1872, e morreu em Lisboa, em 23 de março de 1935. Escritora, jornalista, pedagoga, editora e ativista republicana, construiu uma carreira que atravessou literatura, educação e intervenção política. Sua produção inclui romances, novelas, contos, ensaios, textos jornalísticos e uma extensa obra destinada às crianças.

Sua trajetória ocupa um lugar particular na história cultural portuguesa porque escrita e ação pública estiveram estreitamente ligadas. Ana participou de organizações feministas e republicanas, defendeu educação, trabalho, independência econômica e direitos políticos para as mulheres e colaborou na elaboração da lei portuguesa do divórcio. Ao mesmo tempo, suas posições revelam tensões do próprio feminismo de sua época, inclusive nos limites que admitia para o sufrágio feminino.

Na literatura, tornou-se especialmente associada à produção infantil, mas sua obra foi muito mais ampla. Em 1908 publicou Quatro Novelas, volume que inclui A Feiticeira, texto escolhido para integrar Literatura Feminina: contos de autoras redescobertas, da Inkwell.


Leia Ana de Castro Osório

Em Literatura Feminina, A Feiticeira apresenta uma face menos conhecida de Ana de Castro Osório: a ficcionista voltada para o mundo rural, as relações entre mulheres, a superstição e os mecanismos sociais que transformam suspeita e preconceito em destino. É uma entrada breve para uma obra muito mais vasta.


Por que lembrar de Ana de Castro Osório?

Ana de Castro Osório não pertence apenas à história da literatura portuguesa. Sua trajetória coloca lado a lado atividades que, no início do século XX, ainda ofereciam às mulheres espaços públicos restritos: escrever, editar, ensinar, organizar associações e participar diretamente do debate político. Em 1905 publicou Às Mulheres Portuguesas, apresentado pelas fontes como o primeiro manifesto feminista português; nos anos seguintes, participou da organização de diferentes associações dedicadas à intervenção feminina na vida pública.

Essa atuação, porém, não deve ser simplificada como uma defesa linear da igualdade nos termos atuais. Uma das divergências que provocaram sua saída da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas envolveu justamente sua proposta de restringir o voto feminino às mulheres maiores de idade, instruídas e que pagassem impostos. Na prática, esse critério excluiria grande parte das portuguesas, num país marcado pelo analfabetismo.

A tensão é importante porque mostra uma personagem histórica inserida nas disputas políticas de seu próprio tempo. Ana reivindicava educação, trabalho e independência econômica para as mulheres e participou de campanhas pelo sufrágio, mas concebia o acesso inicial à cidadania política dentro de determinados limites sociais e educacionais. Recuperá-la exige manter juntas essas dimensões, em vez de convertê-la numa figura sem contradições.

Também é significativo que sua intervenção tenha ultrapassado associações feministas. Ana atuou no jornalismo e na edição, colaborou na elaboração da lei do divórcio, participou de iniciativas ligadas ao esforço português durante a Primeira Guerra Mundial e manteve uma relação intelectual duradoura com o Brasil. Sua biografia permite observar como literatura, pedagogia, feminismo e republicanismo podiam ocupar o mesmo projeto de atuação pública.


Vida e trajetória

Dos livros de família à escrita profissional

Ana era a mais nova dos quatro filhos de João Baptista de Castro, magistrado e bibliófilo, e Mariana Osório de Castro, que também se envolveria no movimento feminista. Cresceu em Mangualde num ambiente familiar ligado aos livros e à cultura escrita. Aos 23 anos, já residindo em Setúbal, começou a publicar artigos e crônicas no periódico Mala da Europa. O reconhecimento recebido por esses primeiros textos ajudou a abrir caminho para uma atividade literária e jornalística que se expandiria nas décadas seguintes.

A partir daí, colaborou em diferentes publicações, entre elas A Sociedade Futura, A Mulher e a Criança e O Radical. Sua produção não se restringiu ao jornalismo. Escreveu romances, novelas, contos, textos didáticos e obras infantis e fundou a Lusitânia Editora, por meio da qual também participou diretamente da circulação de livros. A mesma editora publicaria, em 1920, Clepsidra, de Camilo Pessanha.

Literatura, educação e emancipação feminina

A literatura infantil tornou-se uma das áreas mais reconhecidas de sua produção. A coleção Para as Crianças, publicada ao longo de décadas, reuniu narrativas próprias, recolhas da tradição popular e traduções. A ela se associa também um trabalho intenso de recolha e adaptação de contos tradicionais portugueses e de tradução de autores estrangeiros, entre eles os irmãos Grimm.

Mas educação, para Ana, não era um tema separado da posição social das mulheres. Seus textos políticos discutiam direito à instrução, trabalho, voto e independência econômica, enquanto publicações dirigidas às mães tratavam de educação e cuidados com as crianças. Em 1905, Às Mulheres Portuguesas tornou explícita essa intervenção feminista. Poucos anos depois, ela participou da criação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e, após divergências internas, da Associação de Propaganda Feminista.

Entre Portugal e Brasil

Em 1898, Ana casou-se com Francisco Paulino Gomes de Oliveira, poeta, publicista e republicano, com quem teve dois filhos. Em 1911, quando Paulino foi nomeado cônsul de Portugal em São Paulo, a família mudou-se para o Brasil. Ana trabalhou como professora e produziu materiais didáticos, entre eles Lendo e Aprendendo e Lição de História, utilizados em escolas brasileiras e portuguesas.

Paulino morreu de tuberculose em São Paulo, em 1914. Ana regressou então a Portugal com os filhos e instalou-se em Lisboa, mas sua relação com o Brasil continuou. Em 1922 voltou ao país para uma série de conferências no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Paraná e no Rio Grande do Sul. Dessa circulação resultou A Grande Aliança, obra ligada à sua defesa de aproximação cultural entre portugueses e brasileiros.

Uma escritora dentro da política

A implantação da República portuguesa ampliou o espaço de atuação política de Ana. Ela colaborou com o ministro Afonso Costa na elaboração da lei do divórcio e participou de movimentos organizados de mulheres. Durante a Primeira Guerra Mundial, esteve ainda entre as responsáveis pela Comissão Feminina Pela Pátria, criada para mobilizar mulheres em torno do esforço de guerra, e continuou ligada posteriormente à Cruzada das Mulheres Portuguesas. Em 1916 assumiu também uma função pública como subinspetora dos Trabalhos Técnicos Femininos.

Nos últimos anos da Primeira República, sua intervenção pública diminuiu. Segundo as fontes disponíveis, Ana se mostrava desiludida com a situação política portuguesa e passou a concentrar sua atuação na escrita e na Cruzada das Mulheres Portuguesas. Continuou publicando e manteve reconhecimento tanto em Portugal como no Brasil até sua morte, em Lisboa, em 1935. Sua produção literária ultrapassa cinquenta títulos e reúne gêneros e públicos muito diferentes.

O legado de Ana de Castro Osório

A permanência de Ana de Castro Osório pode ser observada em campos distintos. Seu nome continua associado à formação da literatura infantil portuguesa, à recolha de narrativas da tradição oral e a uma produção extensa que inclui também ficção, ensaio, jornalismo e textos de intervenção. Sua atividade editorial acrescenta outra dimensão a esse legado: Ana não apenas escreveu livros, mas participou de sua produção e circulação.

Sua importância histórica está também na documentação de uma fase decisiva da organização feminista em Portugal. As associações que ajudou a criar, sua defesa da educação e da independência econômica feminina, a discussão do sufrágio e sua participação no debate sobre o divórcio mostram mulheres tentando transformar reivindicações sociais em organização e legislação. As divergências em torno de quem deveria ter direito ao voto revelam, ao mesmo tempo, os limites internos desse processo.

Recuperar Ana de Castro Osório hoje significa, portanto, recuperar uma escritora cuja obra não cabe apenas na categoria de literatura infantil nem apenas na história do feminismo. Literatura, edição, pedagogia e política fizeram parte de uma mesma trajetória. Ler novamente textos como A Feiticeira permite acrescentar a ficcionista a uma imagem pública frequentemente dominada pela militante e pela educadora.


Descubra mais sobre Editora Inkwell

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo