Um personagem é uma pessoa ou ser que participa de uma narrativa, como um romance, conto, peça de teatro ou filme. Ele pode ser inteiramente fictício ou inspirado, parcial ou integralmente, em uma pessoa real.
Mas personagens não existem apenas para ocupar espaço dentro de uma história. Suas ações, escolhas, relações e conflitos ajudam a movimentar o enredo e orientam a maneira como o público compreende aquilo que está acontecendo.
Por isso, entender o que é um personagem também significa observar como ele é construído, como se relaciona com os demais e qual função desempenha dentro da narrativa.
Neste artigo
O que é um personagem?
Personagem é uma pessoa ou ser que existe dentro de uma narrativa.
Ele pode aparecer na literatura, no teatro, no cinema e em outras formas narrativas. Pode ser inteiramente inventado ou baseado em uma pessoa real.
Na literatura, os personagens ajudam o leitor a acompanhar a história, compreender o enredo e refletir sobre seus temas.
Isso significa que um personagem não é definido apenas por sua aparência ou personalidade. Ele existe dentro de uma rede de acontecimentos, escolhas e relações.
O que ele faz, como reage e como se relaciona com outras figuras da história é parte essencial de sua construção.
Para que servem os personagens em uma narrativa?
Personagens ajudam a transformar acontecimentos abstratos em ações concretas.
São eles que tomam decisões, enfrentam situações, estabelecem relações e produzem muitas das mudanças que fazem uma história avançar.
A análise de um personagem também depende de sua relação com os demais. Seu papel individual é definido dentro de uma rede de relações e oposições formada com outros personagens.
Por isso, observar um personagem isoladamente nem sempre é suficiente.
Uma personagem pode parecer dominante em relação a uma figura e vulnerável diante de outra. Duas personagens podem representar posições sociais, valores ou interesses diferentes, e o conflito entre elas pode revelar questões maiores da própria obra.
Um personagem precisa ser humano?
Não necessariamente. Pode ser uma pessoa ou ser dentro da narrativa.
Isso permite que personagens assumam formas muito diferentes conforme a obra.
O elemento importante é que o ser participe da narrativa de maneira comparável àquilo que reconhecemos como uma figura capaz de agir, reagir ou ocupar uma função dentro da história.
Quando representado por um ator no teatro ou no cinema, o personagem também pode produzir uma “ilusão de ser uma pessoa humana”.
Personagens podem ser baseados em pessoas reais?
Sim.
Um escritor pode construir um personagem inteiramente a partir da imaginação, mas também pode utilizar:
- alguém que conhece;
- uma figura histórica;
- uma personalidade contemporânea;
- a si próprio;
- determinadas características de uma pessoa real.
Isso não significa que o personagem precise reproduzir fielmente a pessoa que serviu de inspiração.
Uma característica real pode ser ampliada e transformada até dar origem a uma criação ficcional diferente.
Na ficção histórica, personagens reais também podem participar de histórias ficcionais construídas ao redor de suas vidas.
O que é caracterização?
Caracterização é o processo de criação e construção de um personagem.
O termo passou a ser utilizado para designar a arte de criar personagens praticada tanto por escritores quanto por atores.
Caracterizar uma figura significa construir uma percepção de quem ela é.
Isso acontece não apenas por meio de descrições, mas pelo conjunto de informações que a narrativa apresenta sobre ela: suas ações, decisões, relações e maneira de reagir às situações.
A própria tradição clássica já relacionava personagem à ação e à decisão.
Na Poética, Aristóteles entende o caráter não simplesmente como uma pessoa fictícia, mas como aquilo que revela as disposições de quem age dentro da história.
Como um personagem é construído?
Não existe uma única maneira de criar personagens.
Eles podem surgir inteiramente da imaginação ou partir de pessoas e características observadas no mundo real.
Também podem ser construídos a partir de modelos reconhecíveis.
Um escritor pode partir de:
- arquétipos;
- personagens-tipo;
- figuras históricas;
- pessoas reais;
- características transformadas ou ampliadas;
- combinações desses elementos.
O resultado pode variar bastante.
Alguns personagens cumprem funções simples dentro da história. Outros recebem grande quantidade de detalhes, contradições e mudanças ao longo da narrativa.
Por que as relações entre personagens são importantes?
Um personagem também é definido pela maneira como interage com os outros. Seu estudo exige analisar suas relações com as demais figuras da obra.
Isso acontece porque personagens podem revelar aspectos uns dos outros.
Um conflito pode mostrar diferenças de valores. Uma amizade pode revelar vulnerabilidades. Uma relação de poder pode tornar visíveis diferenças sociais ou ideológicas.
Nos próprios livros da Inkwell, essas relações ajudam a revelar conflitos maiores. Em Mães, de Dora Duncker, a relação entre Marianne Harms e sua nora Alrun muda depois da morte de Hans: enquanto Marianne se agarra à memória do filho, Alrun precisa continuar vivendo e reconstruir o próprio futuro.
Em O plano de Diantha, de Charlotte Perkins Gilman, o conflito entre Diantha Bell e seu noivo, Ross Warden, expõe duas concepções diferentes sobre trabalho, casamento e o lugar da mulher, enquanto Isabel Porne mostra, por outro caminho, o que acontece quando as obrigações domésticas entram em choque com uma vida profissional. Assim, as relações entre personagens não movimentam apenas o enredo: elas também tornam visíveis os conflitos sociais e as ideias que a obra coloca em discussão.
Assim, personagens não são apenas indivíduos dentro da história. Eles também fazem parte de uma rede de relações que ajuda a construir o significado da narrativa.
O que são personagens planos e redondos?
Uma das classificações mais conhecidas foi proposta por E. M. Forster em Aspects of the Novel.
Forster distingue personagens planos e redondos.
Personagem plano
O personagem plano é relativamente simples e pouco complexo.
Ele costuma ser construído ao redor de poucas características claramente reconhecíveis.
Isso não significa necessariamente que seja um personagem ruim.
Figuras secundárias podem cumprir perfeitamente sua função narrativa sem precisar receber o mesmo nível de desenvolvimento de um protagonista.
Personagem redondo
O personagem redondo apresenta maior complexidade.
Ele possui diferentes características, pode desenvolver-se ao longo da narrativa e, em alguns casos, agir de maneira capaz de surpreender o leitor.
Essa complexidade permite que a personagem apresente contradições, mudanças e diferentes facetas conforme a história avança.
O que são personagens estáticos e dinâmicos?
Outra distinção importante observa aquilo que acontece com o personagem durante a história.
Personagem estático
Um personagem estático permanece essencialmente igual ao longo da narrativa.
Isso não significa que nada aconteça com ele, mas que sua personalidade ou maneira fundamental de agir não passa por uma transformação significativa.
Personagem dinâmico
Um personagem dinâmico muda ao longo da história.
Ebenezer Scrooge, protagonista de Um conto de Natal, de Charles Dickens, é um exemplo: ele começa a história como um homem avarento e termina transformado em uma figura generosa.
Essa mudança ao longo da narrativa está relacionada ao conceito de arco de personagem.
Plano e redondo, portanto, não são sinônimos de estático e dinâmico. As duas classificações observam aspectos diferentes: uma considera a complexidade da figura; a outra, sua transformação ao longo da história.
O que são personagens-tipo?
Um personagem que representa determinado grupo ou classe de pessoas pode ser chamado de tipo.
Entre essas figuras estão os chamados stock characters, ou personagens-tipo convencionais.
Eles costumam apresentar características facilmente reconhecíveis e frequentemente aparecem em papéis secundários.
Mas partir de um tipo não significa necessariamente terminar com um personagem simples.
Um escritor pode utilizar uma figura convencional apenas como ponto inicial e desenvolvê-la até transformá-la em uma personagem mais complexa.
Falstaff, de Shakespeare, construído a partir da figura tradicional do soldado fanfarrão, é um exemplo desse processo.
O que são arquétipos?
Arquétipos são modelos de personagem recorrentes em diferentes tradições culturais. Há figuras como:
- o pai;
- a mãe;
- o herói.
Alguns escritores utilizam arquétipos associados a sistemas como o de Carl Jung para construir características de personagens.
Quando um arquétipo pertencente a determinado sistema é utilizado, outros elementos da história também podem seguir expectativas relacionadas àquele modelo.
Arquétipo e personagem completo, portanto, não precisam ser a mesma coisa.
Um arquétipo pode funcionar como uma estrutura inicial sobre a qual características mais específicas são desenvolvidas.
Protagonista, antagonista, vilão e outros tipos de personagem
Além de classificar personagens por sua complexidade ou transformação, também podemos observá-los de acordo com a função que desempenham dentro da narrativa.
É aí que aparecem categorias como:
- protagonista;
- antagonista;
- vilão;
- coadjuvante;
- mentor;
- anti-herói.
Essas classificações não respondem necessariamente à pergunta “como é este personagem?”, mas principalmente a outra:
que função ele desempenha dentro desta história?
Um protagonista pode ser complexo ou simples, dinâmico ou estático. O mesmo vale para um antagonista ou personagem secundário.
Por isso, diferentes sistemas de classificação podem ser utilizados ao mesmo tempo para analisar a mesma figura.
Um bom personagem precisa ser complexo?
A classificação entre personagens planos e redondos ajuda justamente a evitar uma conclusão simplista.
Nem todos os personagens precisam apresentar o mesmo grau de complexidade.
Personagens-tipo e figuras secundárias podem cumprir funções específicas dentro de uma narrativa sem necessitar do desenvolvimento reservado a personagens centrais.
A questão relevante é compreender o papel que aquela personagem desempenha dentro da obra.
Uma figura pouco desenvolvida pode ser suficiente para uma função pequena. Uma personagem central, por outro lado, pode exigir um conjunto maior de características, relações e mudanças para sustentar a história.
Personagens existem através de ações e relações
Quando pensamos em um personagem, é fácil imaginar primeiro aparência, personalidade ou passado.
Mas dentro de uma narrativa ele se torna visível principalmente através daquilo que faz, decide e estabelece em relação aos demais.
Essa relação entre personagem e ação é antiga. Na Poética, Aristóteles chegou a defender a primazia do enredo sobre o caráter, argumentando que a tragédia representa sobretudo ação e vida e que os personagens aparecem em função dessas ações.
Outras maneiras de compreender personagens surgiram ao longo do tempo, mas a relação entre quem alguém é e aquilo que faz dentro da história continua sendo central para analisá-los.
Depois de entender o que é um personagem, podemos avançar para uma pergunta mais específica: quais funções diferentes os personagens podem assumir dentro de uma narrativa?
É daí que surgem protagonista, antagonista, coadjuvante, vilão, mentor, anti-herói e muitas outras categorias.

