Ao explorar a história da literatura, uma pergunta intrigante surge: por que encontramos menos obras clássicas escritas por mulheres em comparação com homens?
Esta questão nos leva a uma jornada fascinante através da história, da sociedade e da arte.
O que são considerados clássicos literários?
Antes de mergulharmos na questão principal, é importante entender o que constitui um “clássico” literário.
Os clássicos são obras que resistiram ao teste do tempo, continuando a ser lidas, estudadas e admiradas através das gerações. Eles geralmente abordam temas universais, demonstram excelência artística e têm um impacto duradouro na cultura.
Tradicionalmente, o cânone literário — a coleção de obras consideradas as mais importantes e influentes — tem sido dominado por autores masculinos. Nomes como William Shakespeare, Charles Dickens, Fyodor Dostoevsky e Ernest Hemingway são frequentemente citados como exemplos de autores clássicos.
Mas onde estão as mulheres nesta lista?
Fatores históricos e sociais
A escassez relativa de clássicos escritos por mulheres não é uma questão de talento ou capacidade, mas sim o resultado de uma complexa teia de fatores históricos e sociais:
- Acesso limitado à educação: historicamente, as mulheres tinham menos acesso à educação formal do que os homens. Até o século XIX, era comum que as mulheres fossem excluídas das universidades e de outras instituições de ensino superior. Sem acesso à educação, muitas mulheres talentosas não tiveram a oportunidade de desenvolver plenamente suas habilidades literárias.
- Expectativas sociais: as normas sociais muitas vezes ditavam que o papel principal das mulheres era cuidar da casa e da família. Escrever era frequentemente visto como um passatempo, não como uma profissão séria para mulheres. Muitas escritoras enfrentaram desaprovação social e familiar por suas ambições literárias.
- Barreiras à publicação: mesmo quando as mulheres conseguiam escrever, enfrentavam obstáculos significativos para publicar suas obras. Muitas editoras eram relutantes em publicar livros escritos por mulheres, acreditando que não seriam comercialmente viáveis. Algumas escritoras recorreram ao uso de pseudônimos masculinos para aumentar suas chances de publicação.
O impacto do preconceito de gênero
O preconceito de gênero desempenhou um papel significativo na formação do cânone literário:
- Critérios de avaliação enviesados: os críticos literários, predominantemente homens, muitas vezes aplicavam critérios diferentes ao avaliar obras escritas por mulheres. Temas considerados “femininos” eram frequentemente desvalorizados ou considerados menos sérios.
- Representação nos currículos escolares: por muito tempo, os currículos escolares e universitários focaram em obras escritas por homens. Isso criou um ciclo em que menos obras de mulheres eram estudadas, resultando em menos reconhecimento e menos inclusão em futuras listas de “clássicos”.
Redescobrindo as vozes femininas na literatura
Apesar dos desafios históricos, muitas mulheres conseguiram superar as barreiras e criar obras literárias notáveis. No entanto, muitas dessas obras foram inicialmente negligenciadas ou subvalorizadas:
Nas últimas décadas, tem havido um esforço consciente para redescobrir e reavaliar obras escritas por mulheres que foram ignoradas em suas épocas.
Por exemplo, o romance “Frankenstein” de Mary Shelley, inicialmente publicado anonimamente, é agora reconhecido como uma obra pioneira de ficção científica e horror gótico.
Além disso, críticos literários e acadêmicos estão trabalhando para expandir e diversificar o cânone literário, incluindo mais obras de mulheres e autores de diversas origens.
Isso está levando a uma compreensão mais rica e completa da história literária.
Exemplos de clássicos escritos por mulheres
Apesar dos obstáculos, várias mulheres conseguiram criar obras que são agora consideradas clássicos literários:
- Jane Austen: seus romances, como “Orgulho e Preconceito” e “Emma”, são celebrados por sua aguda observação social e personagens memoráveis.
- As irmãs Brontë: Charlotte, Emily e Anne Brontë produziram obras como “Jane Eyre”, “O Morro dos Ventos Uivantes” e “A Inquilina de Wildfell Hall”, respectivamente, que são agora consideradas obras-primas da literatura inglesa.
- Virginia Woolf: suas obras experimentais, como “Mrs. Dalloway” e “Ao Farol”, revolucionaram a técnica narrativa e exploraram temas complexos de identidade e sociedade.
- George Eliot (Mary Ann Evans): seus romances, incluindo “Middlemarch”, são aclamados por sua profundidade psicológica e comentário social.
O papel da crítica literária
Historicamente, a crítica literária foi dominada por homens, o que influenciou profundamente tanto a avaliação quanto a canonização das obras consideradas “literatura séria”.
Com o surgimento da crítica feminista e de outras abordagens mais inclusivas, muitas obras escritas por mulheres passaram por um processo de reavaliação, levando a um reconhecimento tardio de seu valor literário. Ainda assim, persiste uma desconexão entre a crítica tradicional e o gosto popular: críticos costumam ignorar os livros que os leitores comuns estão consumindo, e esses leitores, por sua vez, também tendem a ignorar as recomendações da crítica.
Porém, quando um romance literário escrito por uma mulher ultrapassa essa barreira e se torna um sucesso de vendas — como aconteceu com A Little Life, de Hanya Yanagihara — frequentemente surge uma reação negativa por parte da crítica, em um movimento apelidado de “Goldfinching”, termo que remete à recepção hostil sofrida por The Goldfinch, de Donna Tartt, mesmo após ter vencido o Prêmio Pulitzer e conquistado uma base massiva de leitores.
Esse fenômeno de “Goldfinching” consiste em desqualificar obras populares — geralmente escritas por mulheres e lidas majoritariamente por mulheres — com argumentos que mesclam elitismo literário e misoginia.
Críticos acusam esses livros de serem sentimentais, imaturos e mal escritos, frequentemente utilizando termos e metáforas com conotação de gênero para ridicularizá-los. Além de atacar as autoras, muitos desses críticos dirigem seu desprezo principalmente às leitoras, retratando-as como ingênuas, infantis ou incapazes de discernir qualidade literária.
No fundo, o verdadeiro alvo do “Goldfinching” não são os livros em si, mas sim o tipo de leitor que os consome — especialmente mulheres.
A crítica literária, muitas vezes guiada por um ideal canônico e masculinizado do que é “boa literatura”, reage com desdém à popularidade feminina, buscando reafirmar hierarquias e fronteiras culturais. Assim, o desprezo não é apenas estético, mas ideológico, e serve para manter um status quo em que o gosto de mulheres leitoras é visto como inferior e irrelevante.
Mudanças no cenário literário contemporâneo
O cenário literário atual está evoluindo rapidamente:
- Maior diversidade: há um esforço consciente para promover e celebrar a diversidade na literatura, incluindo mais vozes femininas e de outros grupos sub-representados.
- Prêmios literários: muitos prêmios literários prestigiosos estão reconhecendo cada vez mais o trabalho de autoras, ajudando a elevar seu perfil e influência.
- Educação literária: currículos escolares e universitários estão sendo revisados para incluir uma gama mais diversificada de autores, incluindo mais mulheres.
Conclusão
A escassez relativa de clássicos escritos por mulheres é um reflexo de séculos de desigualdade e barreiras sistêmicas, não de falta de talento ou capacidade.
À medida que continuamos a reavaliar nossa herança literária e a promover a igualdade no mundo das letras, é provável que vejamos uma mudança gradual na composição do cânone literário.
Reconhecer e celebrar as contribuições das mulheres à literatura clássica não apenas enriquece nossa compreensão do passado, mas também abre caminho para um futuro literário mais diverso e inclusivo. Como leitores, temos a oportunidade de explorar essas vozes muitas vezes negligenciadas e descobrir a riqueza de perspectivas que elas oferecem.
Que tal começar sua jornada de descoberta hoje? Escolha uma obra clássica escrita por uma mulher e mergulhe em um mundo de narrativas poderosas e perspectivas únicas que aguardam ser exploradas.


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